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Sexta-feira, Agosto 01, 2008
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O presente blog está mudando de endereço: www.stalker.blogger.com.br

Em dias no ar, com proposta nova.
 
Sexta-feira, Março 28, 2008
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Yo Yo Ma

Desde as Nove

Doze e meia. Rápido passou a hora
desde as nove quando acendi a lamparina,
e sentei aqui. Estava sentado sem ler,
e sem falar. Com quem falar
completamente só nesta casa.

A imagem do meu corpo jovem,
desde as nove quando acendi a lamparina,
veio e me achou e me lembrou
de quartos fechados aromatizados,
e de prazeres passados – que prazer ousado!
E também trouxe frente a meus olhos,
ruas que agora tornaram-se desconhecidas,
centros cheios de movimento que terminaram,
e teatros e cafés que eram uma vez.

A imagem do meu corpo jovem
veio e também me trouxe coisas tristes;
lutos da família, separações,
sentimentos dos meus, sentimentos
dos mortos tão pouco avaliados.

Doze e meia. Como passou a hora.
Doze e meia. Como passaram os anos.

Konstantinos Kaváfis(1918)
......................................................................................

Jura

A cada pouco jura começar vida nova.
Mas quando a noite vem com seus conselhos,
seus compromissos, com suas promessas;
mas quando a noite vem com sua força
(o corpo quer e pede), ele de novo sai,
perdido, atrás da mesma alegria fatal.

Konstantinos Kaváfis

ps.: enviados por um grande amigo.
 
Sexta-feira, Março 07, 2008
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Nicola Conte

Solução

Nota: É noite. A personagem encontra-se na sala de estar de sua casa. O aspecto do local é desarrumado, cheio de sombras, por conta da única luminária ligada.

A mulher: suas mãos deslizavam de maneira sôfrega pelos seus braços. Pulsos formigavam. Os olhos, atentamente, recaíam no movimento dos ponteiros. O relógio, sobre um velho aparador, parecia quebrado. O lento caminhar do tempo a incomodava.

Andava de um lado para o outro vestida naquela combinação sóbria, porém de uma dignidade sofisticada: salto e vestido negros, cabelos escovados para trás e um tom de vermelho forte lhe cobrindo os lábios. Fumava um cigarro apressadamente e olhava para a porta. Um mal estar se instalava em suas expressões ao constatar algo demorando a chegar.

Mais um tempo passou. Batidas leves, então, foram feitas na porta de entrada. Um alívio a percorreu naquele instante, seguido de um arfar de encorajamento. Caminhou até a maçaneta e a girou:

- Demorei?, perguntou o homem parado à porta.

- O suficiente., respondeu a mulher, soltando uma baforada na direção do convidado.

- Desculpe. Fiquei inquieto antes de vir para cá. Sua proposta me deixou aturdido desde quando nos falamos pelo computador da última vez. Ao me aprontar, um pouco antes, me senti meio letárgico.

- Você trouxe o que lhe pedi?

- Como eu iria esquecer?

Ambos sentaram e permaneceram num clima mudo. Os olhos da mulher percorreram o homem a sua frente. Ele usava um terno azul marinho, óculos de aro grosso e preto sobre o rosto e sapatos extremamente lustrados.

- Você aceita algo para beber?, perguntou ao convidado para quebrar o silêncio.

- Whisky?

- OK. Um segundo.

Seguiu até a cozinha. Pegou uma garrafa de whisky já pela metade, sobre a geladeira, e serviu dois copos sem gelo. Aquela situação lhe era desconfortável, mas o propósito de tudo aquilo a fazia manter a calma. Voltou para a sala e entregou um dos copos ao homem, que, após fazer uma mesura, a deixou na condição de voltar ao seu lugar no sofá.

O homem ficou olhando ao seu redor, meio embarassado. Segurava o copo e bebericava em pequenas doses, inúmeras vezes. Resolveu iniciar uma conversa:

- Tenho pensamentos loucos, às vezes. Você gostaria de escutá-los?

- Vá em frente. Pelo menos esquecemos as circunstâncias.

- Pois bem. É o seguinte. Hum... Já pensou como seria estranho se a humanidade se limitasse a uma sonda espacial? Err... digo, se o nosso planeta estivesse num estágio de degradação e não houvesse mais chances para nós humanos aqui, de forma que resolvessem enviar uma sonda para o espaço com tudo aquilo que nós produzimos de mais importante? Milhões de dados, contendo toda nossa história, produção e banco de imagens...

- Onde você quer chegar?, questionou a mulher.

- Não, pense bem... Como poderiam definir o essencial, o merecedor de uma segunda chance na escuridão do universo? Quem definiria?

- Bem, não imagino um propósito nisso. Mesmo assim, vejo pouca coisa essencial.

- Pouca coisa? Milhares de anos, culturas, toda uma produção científica e cultural ? Estamos falando da nossa identidade!

- Identidade? Acho que somos péssimos em manter coerência nisso. Continuo vendo pouca coisa essencial. Música, por exemplo é algo que por mim teria seu fim na nossa extinção. Não gosto de música.

- Você torna as coisas difíceis... E o que você salvaria, por acaso?

- Ah... Alguns livros, talvez. Acho que eu faria questão de salvar, pelo menos, os livros do Bukowski. Salvá-lo e resgatar a idéia para essa eternidade de que americano é uma coisa ruim.

- Gosto do raciocínio. Mas enfim, como não seríamos nós, qual parâmetro você acha que seria usado para selecionar isso?

- Bem... a gente tem uma idéia do que é tido como essencial, não? Acho que a escolha seria sob essa perspectiva. Veja dessa forma: Flaubert, indiscutivelmente, estaria nessa barca. Ninguém questiona sua importância. Uma arca de Noé high tech, não é?, sugeriu a mulher.

- É verdade. Uma forma divertida de reinventar uma lenda: a arca da salvação. E... Imagina, então, se houvesse uma outra civilização inteligente, que achasse essa sonda. Eles iriam buscar a lógica da nossa comunicação, mais ou menos rudimentar para eles, e teriam um mundo de novas perspectivas, sensações, raciocínios... Como seria lidar com isso? A possibilidade de captar a essência de uma obra como a do Sartre ou mesmo do Karl Marx...!? O impacto ou a frustração?

- Isso é um problema deles!, disse a mulher já com seu copo vazio. - Vou pegar mais whisky.

- Eu também quero mais

Voltou com a garrafa, desta vez. Pôs no centro da mesa e ambos se serviram de seu conteúdo. Dado uns instantes o homem continuou:

- O que seria para uma outra civilização, sem a noção espacial que temos aqui, tomar conhecimento de um mundo habitado com várias cores desconhecidas, palavras, objetos-coisas sem sentido. A probabilidade de nomeclaturas novas é algo louco.

- Mas o que fez você pensar nisso?

- Eu lhe falei que tenho idéias estranhas... Devo ter pensado nisso vendo TV. Sofro de insônia e fico vendo essas porcarias que passam de madrugada. Um outro dia eu vi um filme antigo, em preto e branco. O nosso mundo era invadido, mas nós não sabíamos. Eu sei que os alienígenas criavam clones de cada um de nós, numa espécie de vagem. Engraçado.

- Idiotice total!

- Nada! Era meio que uma metáfora para a chegada do comunismo. Coisa de doido. Pelo período do filme, imaginei isso, ainda mais por que os americanos adoram demonizar o que os ameaça.

- Concordamos em algo: odiamos americanos!, completou a mulher.

- Mas nada para mim é pior, entenda, do que radical religioso. É o ápice do medíocre.

- Também. Se eu fosse uma monarca tirana, proibiria qualquer inclinação religiosa no meu território. A educação teria essa incumbência de matar o menor sinal de espiritualidade. Essa estória de elevação e tudo mais... Para mim isso é um monte de merda.

- Eu mandaria matar esses filhos da puta a pauladas, com suas imagens e livros folclóricos. Queria que todos fossem enterrados num fosso com suas mitologias perniciosas.

- Olha... É por isso e por tantas outras coisas que eu lhe pedi aquilo na outra noite.

- Hu-hum.

- Você sabe que não há saída para nós dois, como para tantos outros malditos que estão espalhados por várias cidades do planeta.

- É. Pensei agora, nesse exato momento que você falou isso, em algo engraçado: nós deveríamos ser semeadores num campo de centeio!, disse o homem e logo se pôs a rir.

- Muito boa essa, meu querido. Deveríamos sim: semeadores num campo de centeio. Aliás, voltando ao negócio da sonda; imaginei agora: eu salvaria a obra do Salinger. O universo merece toda aquela porra.

Ambos se olharam por uns instantes. Um silêncio súbito recaiu entre eles. O homem, tentando aproveitar a chance, e não mais postergá-la, retirou um pequeno frasco do bolso. A mulher, por sua vez esvaziou a garrafa nos dois copos, enquanto ele dividia o conteúdo do seu frasco. Um último drink.

- Acredito que não há espaço nem como respirar aqui também., comentou o homem.

- Sim. É insuportável... Semeadores no campo de centeio. Essa foi boa., falou num tom mais leve, chegando até mesmo a ser feliz.

- Saúde., propôs o homem.

- Sim, saúde. Aqui chegaremos num ponto injustificável, no nada. Chegaremos aonde tudo chegará um dia, ausente de méritos, sem razão, nem ser. Livres da dicotomia e das nomeclaturas. Do peso da vaidade em achar que há explicações para as coisas. Nada.

- Ao nada., finalizou o homem.

Ambos beberam o conteúdo de seus copos e se encerraram no silêncio; na única imaculação real e necessária. Fecharam os olhos e a si, até a vida se esvair.

John Fletcher
 
Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008
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Gothan Project

Não sei se são os critérios, mas cada vez mais me vejo numa ladeira, sem marcha, me tornando mais amargo, intolerante, isolado. Critérios? Pode até ser que sim, eles nos matam um pouco mais. Acrescentam ao insuportável grãos. Referências mudam as perspectivas, apuram a sensibilidade. Não cheguei nem na metade do caminho.

John Fletcher
 
Segunda-feira, Janeiro 28, 2008
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Sigur Rós

Alimento e realimento sonhos,
Mesmo estando numa zona escura.
Você não é uma fumaça que se esvai.

John Fletcher
 
Segunda-feira, Outubro 15, 2007
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Antony and the Johnsons

Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

- Pablo Neruda - o que mais me deixou tocado num dia quando é tão difícil o ser.
 
Quarta-feira, Setembro 26, 2007
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antony and the johnsons

Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor
assim descontraído
Quem sabe de tudo não fale
Quem não sabe nada se cale
Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
 
Sexta-feira, Setembro 21, 2007
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Mopplen

Vim, cheio de saudade,
cheio de coisas lindas pra dizer...
Vim, porque sentia
que nada exitia
fora de você...
Nem a poesia, amor,
na sua ausência,
quis me receber...
Vim banhado de pranto...
Eu te amo tanto...
Vem aos braços meus,
sem mais adeus, vem...

- Sem Mais Adeus - Francis Hime/ Vinícius de Moraes -
 
Quinta-feira, Agosto 16, 2007
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Terça-feira, Julho 24, 2007
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Artic Monkeys

Impressões do Ser

Enquanto ele dormia em meus braços,
Minha consciência trilhava caminhos obscuros;
Pensava coisas que não ousava dizer.

Como eu amava cada sutileza dele...

Sentia a maneira com a qual o ar que saía de suas narinas
Arremessava-se contra as paredes do meu rosto –
Aquele era um ar que tinha cheiro,
Criador de um frisson,
Da mesma forma como cada odor de suas intimidades.

Deitado ao meu lado, eu sabia como cada pele,
Cada curvatura
Prostrava-se sobre a almofada;
Reclinava-se, mexia e mantinha um compasso harmônico com minha presença.

Seu corpo era um território pelo qual meus pés e minhas mãos
Buscavam passear cada hora do dia.
Tão insaciável minha alma se mostrava na consciência do tempo!

E os pêlos...
Os pêlos se emaranhavam, arranhavam-me.

Eu retumbava por cada centímetro daquele ser e sabia,
Plenamente.

John Fletcher
 
Sábado, Junho 09, 2007
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Snow Patrol - Open Your Eyes

Esperando cada manhã;
Dormindo e acordando em terras distantes.
Lençóis molhados de lágrimas e sonhos.

John Fletcher
 
Domingo, Junho 03, 2007
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Doves

Vi um lusco-fusco agigantando-se
Nas sombras do fechar de meus olhos.

Minha visão periférica traz imagens de mundos além mar
E estrelas palpáveis à luz do dia.

John Fletcher
 
Segunda-feira, Maio 28, 2007
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Grandaddy - The Warming Sun

Em algumas calçadas, por entre faróis,
Observo a ti, acenando.

É durante a noite e as primeiras horas matinais
Que meu peito arfa com mais força.

John Fletcher
 
Sábado, Maio 26, 2007
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Wilco - How to Fight Loneliness

As chuvas carregam uma impotência
Que se avoluma na penumbra da noite.
Nem sempre há sorrisos prenunciando o horizonte.

John Fletcher

 
Quarta-feira, Maio 23, 2007
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Zero 7 - Morning Song

Em qualquer canto, naqueles lugares mais solitários,
Sons se reproduzem, trazem lembranças, imagens...
O silêncio corrompe meu otimismo.

John Fletcher

ps.: sem tempo para escrever muito aqui mesmo.
 
Quarta-feira, Abril 04, 2007
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Nina Simone - Just In Time

Daydream, delusion, limousine, eyelash
Oh baby with your pretty face
Drop a tear in my wineglass
Look at those big eyes
See what you mean to me
Sweet-cakes and milkshakes
I'm a delusion angel
I'm a fantasy parade
I want you to know what I think
Don't want you to guess anymore?
You have no idea where I came from
We have no idea where we're going
Latched in life
Like branches in a river
Flowing downstream
Caught in the current
I'll carry you
You'll carry me
That's how it could be
Don't you know me?
Don't you know me by now?

- before sunrise -

 
Terça-feira, Março 27, 2007
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Madeleine Peyroux - Between The Bars

Drink up, baby, stay up all night.
With the things you could do,
You won't but you might.
The potential you'll be,
That you'll never see,
The promises you'll only make.
Drink up with me now,
And forget all about
The pressure of days.
Do what I say,
And I'll make you okay,
And drive them away
The images stuck in your head:
People you've been before
That you don't want around anymore!
That push and shove and won't bend to your will.
I'll keep them still.
Drink up, baby, look at the stars.
I'll kiss you again
Between the bars,
Where I'm seeing you there,
With your hands in the air,
Waiting to finally be caught.
Drink up one more time,
And I'll make you mine.
Keep you a part,
Deep in my heart,
Separate from the rest,
Where I like you the best,
And keep the things you forgot.
The people you've been before
That you don't want around anymore!
That push and shove and won't bend to your will.
I'll keep them still.

- elliot smith - between the bars -

 
Segunda-feira, Março 19, 2007
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Stereophonics - Dakota

O Pescador de Estrelas

Lançou a linha mais uma vez... A lua emanava raios, e um espelho do céu estrelado se despontava a sua frente, naquelas águas paradas. Observava cada fragmento de luz ganhar, no lago, um belo irmão, um outro brilho intermitente, à semelhança de seus originais espalhados pelo teto do universo. Cada qual recebia uma companhia, ali, defronte de onde se quedava o pescador com suas gigas...

Os anos, há muito, já tinham se passado para aquele homem. Sua vida ia se apagando na sua memória, gradativamente, mas, desde a infância, o ato de se sentar às margens da água não perdia espaço; não luzia diferente. Ninguém entendia o porquê da insistência dele com tal hábito, pois não haveria um peixe sequer, consigo. Todos sabiam inexistir, desde sempre, um único fruto de seu trabalho de todas as noites, dentro do depósito que trazia de sua casa. Só seu íntimo conhecia a resposta, mas isso guardava para si, para seu mundinho pessoal. Os outros continuariam a não entender, afinal, não devia explicações aos moradores de seu vilarejo.

Deixou-se observar o céu... Aos poucos, as memórias iam lhe banhando e, imerso nesses fluxos, passaria mais uma noite inteira. Via cada ondulação, provocada por algum sapo, se aproximar de onde se encontrava; escutava o barulho de insetos, desde grilos até outros desconhecidos; observava a cadência das árvores, em sua dança com o vento. Um sentido existia em cada movimento, som e textura daquela cena.

Suas memórias? A maioria da infância, quando as cores têm um significado pessoal: família unida, nos almoços, gritando e cozinhando delícias nunca mais provadas; seus primos entusiasmados com brinquedos de madeira; as músicas alegres e Aurora, a garota mais especial de sua existência, vizinha e desbravadora de aventuras memoráveis (antigamente, um sentimento de amizade mais forte nascia entre os habitantes das casas próximas a de seus pais). Foi com ela que surgiu o prazer de se esconder das pessoas próximo às águas do lago.

Aurora contou a história do mistério das estrelas. Ela falava, sempre em tom sério, de que um dia pescaria uma para si (pois essa era a maneira de se obter uma: pescando seu reflexo num lago) e a guardaria numa caixa nova de sapatos, onde poderia olhar toda noite, antes de dormir. Não era certo o tamanho dela, mas não deveria ser muito maior do que aparentava - como um grão de milho, talvez. Sua luz irradiaria por todos os cantos do quarto de Aurora, afastando os medos quando eles surgissem, e dando mágica ao seu sono.

Dessa forma, criaram a idéia de ir ao lago, todo dia, para pescar a tal da estrela. Nunca desistiam, não se cansavam, pois aquele empenho deveria ser feito com ardor. Na ponta do anzol passavam açúcar (Aurora sabia de tudo e, segundo ela, as estrelas adoravam açúcar), fitavam ansiosamente cada farfalhar e permaneciam quietos, na expectativa do acontecimento. Era um feito difícil e desconheciam se alguém possuía uma estrela (talvez possuíssem, em forma de segredo, e eles mesmos tratariam de não espalhar quando tivessem a deles)...

Infelizmente, os anos se passaram muito rápido e Aurora nem pôde vê-los como o pescador os vira. Um mal se abateu cedo sobre a menina, quando esta não havia completado seus doze anos. Foi tudo muito triste e depois do acontecido os pais dela se mudaram da vizinhança. Mas não foi só ela a se ir: depois, seus próprios criadores foram embora, para um mundo bem distante; seus primos viajaram e a casa ficou, cada ano, mais vazia. Os almoços já não eram tão barulhentos (na verdade, quase silenciosos) e as cores trataram de deixar um sabor de saudade...

O que sobrou? A inocência; a crença de que, quando conseguir pescar uma estrela, tudo voltará a ser do jeito de antes. O astro restaurará o brilho perdido da vida de todos e trará Aurora de volta, que se foi e não se despediu.

Toda noite o pescador ficava quieto, na expectativa, da chegada da pequena esperança; na espectativa de adormecer e não mais precisar abrir os olhos...

John Fletcher
 
Sábado, Março 17, 2007
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Ryan Adams - So Alive

Whose woods these are I think I know.
His house is in the village though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.

My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and frozen lake
The darkest evening of the year.

He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake.
The only other sound's the sweep
Of easy wind and downy flake.

The woods are lovely, dark and deep.
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.

- Robert Frost -
 
Sexta-feira, Março 16, 2007
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Air - Mike Mills


Restos de Um Carnaval

Sentou-se no banquinho, junto a sua penteadeira, com o olhar pousado no espelho. Seu olhar vago verificou cada sulco em seu rosto, cada definição de sua velhice na pele. Pela última vez, naquela vida, se sentaria ali, defronte àquele mostrador dos anos que se passavam.

Tratou, inicialmente, de se perfumar com seu talco, esparramado sobre seus seios em sua esponja aveludada. Alma de Flores. Há anos já usava aquela mesma marca. Seu cheiro era um misto de suor de velha com o aroma daquela substância anti-séptica. Adorava as manchas brancas na carne. Traziam-lhe uma sensação de limpeza, de pureza.

Pôs também um pouco de sombra nas pálpebras e um batom reluzente nos lábios murchos. Outrora sua beleza ficava viva, em chamas, mas hoje havia mais um quê de nostalgia. Enfim, isso não importava. A alegria era ainda a mesma ao se preparar para os bailes de carnaval. Aquele seria seu derradeiro festejo e nada mais justo do que a tradição de anos anteriores; nada mais justo do que a fantasia e a maquiagem que tanto lhe eram referência.

Enquanto vestia sua roupa cheia de lantejoulas, já conseguia pensar nas músicas, no confete, nas risadas... Para cada momento de seus inúmeros carnavais, elas, as risadas, foram as que nunca faltaram: nas danças, nos suores, nas companhias dos amigos, dos quais muitos já tinham partido. Risadas seriam uma marca de todos aqueles dias mágicos e que levaria consigo para baixo da terra.

Passou perfume atrás das orelhas, enquanto o brilho das luzes já se antecipava em sua mente. Arrumou suas roupas na mala, posta em cima da cama, e cantarolou imagens saudosistas. As roupas... Ah, elas já estavam devidamente prontas (na verdade, prontas há anos), em seus espaços delimitados e, finalmente, a decisão que esperou tomar há tanto tempo estava sendo praticada. A certeza era incontestável de sua partida. Nada lhe parecera antes tão certo.

Por fim calçou os sapatos, carregou a mala e bateu a porta da casa. Uma brisa refrescou seus cabelos e pode ver as ruas já cobertas de cores e serpentinas. Um certo ritmo tremeu em suas ancas quando desceu a rua rumo à folia. Iria, naquele dia, para seu último baile, de malas prontas, fantasia impecável e cabeça erguida, pois sabia que todo carnaval, mesmo deixando restos, tinha de ter seu fim.

John Fletcher
 
Sábado, Março 10, 2007
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Death Cab for Cutie - I'll Follow You Into the Dark

i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it (anywhere
i go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
i fear
no fate (for you are my fate, my sweet) i want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;
which grows higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart (i carry it in my heart)

- e.e.cummings
 
Quarta-feira, Março 07, 2007
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Moby - My Weakness


Amarcord Para...

Tenho saudades de um gosto não sentido, de um abraço não posto em prática. Saudades de um olhar; de um estar, nesses dias cinzas e cheios de chuva. Em dias como este, quando há um espaço vazio no meu quarto, na minha alma, e gotas vêem do céu para limpar as ruas e deixar um cheiro de distância.

Em certos momentos um não-algo se abate sobre meu peito, uma falta, uma insensatez. É como se um transe sobreviesse, fazendo das minhas horas uma espera, um desejo; uma dor se instala lá no fundo, remoendo, deixando-me calado, sem vontade de muita coisa, a não ser observar - talvez seja essa a essência da espera.

São nesses momentos nos quais meus pensamentos mais sombrios estacionam, fruto do advento desse fatalismo inerente ao meu eu; do questionamento desse merecimento do tal amor. Talvez, por conta desse diagnóstico da brevidade do tudo, crio espaço para a verbalização diária do meu deslumbre por você, como uma forma de, sob o espectro da morte, confirmar-lhe essa inquietude.

Porém, ainda, continuo aqui, com um olhar vago, carregado de uma nostalgia de um tempo não vivido, esperando esse dia no qual lhe carregarei nos braços e, enfim, poderei dar-lhe um beijo; esperando o dia em que deitarei do teu lado e falarei bobagens ao pé do seu ouvido, comentando sobre coisas, pessoas, fatos e até o final do filme "antes do pôr-do-sol" (como a consciência atormenta e a espera se transforma num caco de vidro marcando os pés!!!).

Quero que chegue o dia quando as memórias serão reais e a perspectiva de sua estadia um fato comprovado e prolongado pela eternidade. Quero que chegue o dia quando as pessoas me olharão na fila do pão e saberão que eu lhe encontrei. Quero que chegue o dia... Sinceramente eu quero, meu amor.

JohnFletcher
 
Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007
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Zeca Baleiro - Nalgum Lugar

"Colada à tua boca a minha desordem,
O meu vasto querer;
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida,
Árdua,
Construtor de ilusões, examino-te sôfrega,
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo,
Eu te sorvo extremada a luz do amanhecer."
( Do Desejo - 1992 )

- Hilda Hilst -
 
Terça-feira, Fevereiro 20, 2007
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Sarah Vaughan - Words can't describe


Um Sol Nascente Entre Vales Distantes

Bebi mais um gole de meu café. A fumaça do último cigarro daquela noite (ou do que ela tinha sido, pois já estava claro) me rodeava. Sim, nada havia restado senão meus pensamentos; as lembranças de seu rosto observado por mim naquele dia e nunca mais desde então...

Não havia uma explicação crivel. Sua chegada tinha sido repentina, abrupta, sem formalidades, mas de certa forma esperada (como também prevista por muitos). Eu deveria reconhecer, desde aquele instante, a ferocidade com a qual sua imagem se tornaria devastadora em cantos e espaços vazios de minh'alma.

Já deveria passar das 6 da manhã e uma respiração alquebrada se mantinha no meu peito. Acho que havia uma relação entre seus gestos se repetindo automaticamente no meu inconsciente e minha resposta biológica - remontava cada movimento feito por você comigo mesmo, em meu íntimo.

Um sono começava a cair de maneira delicada e minhas forças se fechavam num espaço abstrato. Uma saudade se instaurava crescentemente... Saudade de um cheiro não lembrado, de um toque mal disseminado; saudades de um você completo, preenchendo minha noção de real material.

Sua face era um espectro e me fechei em silêncio nalgum lugar, constatando a chegada de mais um dia onde laços se fortaleciam; onde sua estada era mais que algo breve. Cada centímetro, partícula e ressonância pertencente a ti ganhava uma importância divina.

Sorri, sozinho, sentado naquele espaço vazio (um vazio aparente). Pela primeira vez tinha certeza que amava, sem banalizações para com a palavra amor... Sim, eu sabia que lhe amava.

Apaguei meu cigarro, por fim, e fui dormir embalado pela sua voz. Uma linda criança...

John Fletcher
 
Sábado, Fevereiro 10, 2007
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Muse - Supermassive Black Hole

Eu te murmuro.
Eu que soletro
Teu nome no escuro.

- Chico Buarque -

--> Prometo que atualizarei meu blog. Estou aprendendo a conviver com um horário mais corrido.