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Nicola Conte
Solução
Nota: É noite. A personagem encontra-se na sala de estar de sua casa. O aspecto do local é desarrumado, cheio de sombras, por conta da única luminária ligada.
A mulher: suas mãos deslizavam de maneira sôfrega pelos seus braços. Pulsos formigavam. Os olhos, atentamente, recaíam no movimento dos ponteiros. O relógio, sobre um velho aparador, parecia quebrado. O lento caminhar do tempo a incomodava.
Andava de um lado para o outro vestida naquela combinação sóbria, porém de uma dignidade sofisticada: salto e vestido negros, cabelos escovados para trás e um tom de vermelho forte lhe cobrindo os lábios. Fumava um cigarro apressadamente e olhava para a porta. Um mal estar se instalava em suas expressões ao constatar algo demorando a chegar.
Mais um tempo passou. Batidas leves, então, foram feitas na porta de entrada. Um alívio a percorreu naquele instante, seguido de um arfar de encorajamento. Caminhou até a maçaneta e a girou:
- Demorei?, perguntou o homem parado à porta.
- O suficiente., respondeu a mulher, soltando uma baforada na direção do convidado.
- Desculpe. Fiquei inquieto antes de vir para cá. Sua proposta me deixou aturdido desde quando nos falamos pelo computador da última vez. Ao me aprontar, um pouco antes, me senti meio letárgico.
- Você trouxe o que lhe pedi?
- Como eu iria esquecer?
Ambos sentaram e permaneceram num clima mudo. Os olhos da mulher percorreram o homem a sua frente. Ele usava um terno azul marinho, óculos de aro grosso e preto sobre o rosto e sapatos extremamente lustrados.
- Você aceita algo para beber?, perguntou ao convidado para quebrar o silêncio.
- Whisky?
- OK. Um segundo.
Seguiu até a cozinha. Pegou uma garrafa de whisky já pela metade, sobre a geladeira, e serviu dois copos sem gelo. Aquela situação lhe era desconfortável, mas o propósito de tudo aquilo a fazia manter a calma. Voltou para a sala e entregou um dos copos ao homem, que, após fazer uma mesura, a deixou na condição de voltar ao seu lugar no sofá.
O homem ficou olhando ao seu redor, meio embarassado. Segurava o copo e bebericava em pequenas doses, inúmeras vezes. Resolveu iniciar uma conversa:
- Tenho pensamentos loucos, às vezes. Você gostaria de escutá-los?
- Vá em frente. Pelo menos esquecemos as circunstâncias.
- Pois bem. É o seguinte. Hum... Já pensou como seria estranho se a humanidade se limitasse a uma sonda espacial? Err... digo, se o nosso planeta estivesse num estágio de degradação e não houvesse mais chances para nós humanos aqui, de forma que resolvessem enviar uma sonda para o espaço com tudo aquilo que nós produzimos de mais importante? Milhões de dados, contendo toda nossa história, produção e banco de imagens...
- Onde você quer chegar?, questionou a mulher.
- Não, pense bem... Como poderiam definir o essencial, o merecedor de uma segunda chance na escuridão do universo? Quem definiria?
- Bem, não imagino um propósito nisso. Mesmo assim, vejo pouca coisa essencial.
- Pouca coisa? Milhares de anos, culturas, toda uma produção científica e cultural ? Estamos falando da nossa identidade!
- Identidade? Acho que somos péssimos em manter coerência nisso. Continuo vendo pouca coisa essencial. Música, por exemplo é algo que por mim teria seu fim na nossa extinção. Não gosto de música.
- Você torna as coisas difíceis... E o que você salvaria, por acaso?
- Ah... Alguns livros, talvez. Acho que eu faria questão de salvar, pelo menos, os livros do Bukowski. Salvá-lo e resgatar a idéia para essa eternidade de que americano é uma coisa ruim.
- Gosto do raciocínio. Mas enfim, como não seríamos nós, qual parâmetro você acha que seria usado para selecionar isso?
- Bem... a gente tem uma idéia do que é tido como essencial, não? Acho que a escolha seria sob essa perspectiva. Veja dessa forma: Flaubert, indiscutivelmente, estaria nessa barca. Ninguém questiona sua importância. Uma arca de Noé high tech, não é?, sugeriu a mulher.
- É verdade. Uma forma divertida de reinventar uma lenda: a arca da salvação. E... Imagina, então, se houvesse uma outra civilização inteligente, que achasse essa sonda. Eles iriam buscar a lógica da nossa comunicação, mais ou menos rudimentar para eles, e teriam um mundo de novas perspectivas, sensações, raciocínios... Como seria lidar com isso? A possibilidade de captar a essência de uma obra como a do Sartre ou mesmo do Karl Marx...!? O impacto ou a frustração?
- Isso é um problema deles!, disse a mulher já com seu copo vazio. - Vou pegar mais whisky.
- Eu também quero mais
Voltou com a garrafa, desta vez. Pôs no centro da mesa e ambos se serviram de seu conteúdo. Dado uns instantes o homem continuou:
- O que seria para uma outra civilização, sem a noção espacial que temos aqui, tomar conhecimento de um mundo habitado com várias cores desconhecidas, palavras, objetos-coisas sem sentido. A probabilidade de nomeclaturas novas é algo louco.
- Mas o que fez você pensar nisso?
- Eu lhe falei que tenho idéias estranhas... Devo ter pensado nisso vendo TV. Sofro de insônia e fico vendo essas porcarias que passam de madrugada. Um outro dia eu vi um filme antigo, em preto e branco. O nosso mundo era invadido, mas nós não sabíamos. Eu sei que os alienígenas criavam clones de cada um de nós, numa espécie de vagem. Engraçado.
- Idiotice total!
- Nada! Era meio que uma metáfora para a chegada do comunismo. Coisa de doido. Pelo período do filme, imaginei isso, ainda mais por que os americanos adoram demonizar o que os ameaça.
- Concordamos em algo: odiamos americanos!, completou a mulher.
- Mas nada para mim é pior, entenda, do que radical religioso. É o ápice do medíocre.
- Também. Se eu fosse uma monarca tirana, proibiria qualquer inclinação religiosa no meu território. A educação teria essa incumbência de matar o menor sinal de espiritualidade. Essa estória de elevação e tudo mais... Para mim isso é um monte de merda.
- Eu mandaria matar esses filhos da puta a pauladas, com suas imagens e livros folclóricos. Queria que todos fossem enterrados num fosso com suas mitologias perniciosas.
- Olha... É por isso e por tantas outras coisas que eu lhe pedi aquilo na outra noite.
- Hu-hum.
- Você sabe que não há saída para nós dois, como para tantos outros malditos que estão espalhados por várias cidades do planeta.
- É. Pensei agora, nesse exato momento que você falou isso, em algo engraçado: nós deveríamos ser semeadores num campo de centeio!, disse o homem e logo se pôs a rir.
- Muito boa essa, meu querido. Deveríamos sim: semeadores num campo de centeio. Aliás, voltando ao negócio da sonda; imaginei agora: eu salvaria a obra do Salinger. O universo merece toda aquela porra.
Ambos se olharam por uns instantes. Um silêncio súbito recaiu entre eles. O homem, tentando aproveitar a chance, e não mais postergá-la, retirou um pequeno frasco do bolso. A mulher, por sua vez esvaziou a garrafa nos dois copos, enquanto ele dividia o conteúdo do seu frasco. Um último drink.
- Acredito que não há espaço nem como respirar aqui também., comentou o homem.
- Sim. É insuportável... Semeadores no campo de centeio. Essa foi boa., falou num tom mais leve, chegando até mesmo a ser feliz.
- Saúde., propôs o homem.
- Sim, saúde. Aqui chegaremos num ponto injustificável, no nada. Chegaremos aonde tudo chegará um dia, ausente de méritos, sem razão, nem ser. Livres da dicotomia e das nomeclaturas. Do peso da vaidade em achar que há explicações para as coisas. Nada.
- Ao nada., finalizou o homem.
Ambos beberam o conteúdo de seus copos e se encerraram no silêncio; na única imaculação real e necessária. Fecharam os olhos e a si, até a vida se esvair.
John Fletcher